Até a Nasa já sabe: é preciso cuidar da água subterrânea do Brasil

Um novo estudo revela a superexploração das águas subterrâneas no país, exigindo ações urgentes para proteger essa riqueza essencial
Imagem aérea do rio São Francisco, na cidade de Pirapora (MG).
Rio São Francisco, na altura da ponte Marechal Deodoro, em Pirapora (MG) | Foto: Projeto Preserva

 

Outro dia fiz a seguinte pergunta a uma amiga: você sabe a qual grande rio você pertence? Qual é sua bacia hidrográfica? Ela me olhou como quem ouve outro idioma. Eu, prestes a rir, confessei que também não faria ideia da resposta há alguns anos. Mais difícil ainda seria saber quais aquíferos estão embaixo de nós, nas profundezas do solo.

Em algum momento, perdemos nossa conexão ancestral com a água, mas os rios seguem correndo, invisíveis, sustentando a civilização por baixo dos nossos pés. Chega a ser difícil imaginar: os rios representam menos de 1% de toda a água armazenada no Brasil. Os outros 98% moram debaixo da terra, nos aquíferos.

Essas usinas naturais de água subterrânea fazem um incrível trabalho sozinhas: absorvem lentamente a água da chuva, armazenam e liberam água pura para as nascentes e rios. Sem os aquíferos, dificilmente o agro seria um bom negócio, e a mineração perderia seu insumo mais precioso.

 

O diagnóstico que vem do espaço

 

No início do mês, um sinal amarelo começou a piscar em todo país: o maior levantamento já feito sobre as águas subterrâneas do Brasil foi publicado na revista científica Science Advances. Pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil e do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa, cruzaram duas décadas de dados de satélite e concluíram que em várias regiões do país, a retirada de água para abastecimento e produção agrícola já supera a capacidade natural de reposição pela chuva.

É urgente rever a gestão da água e proteger os aquíferos. Reconheço que é difícil se mobilizar para proteger aquilo que não conhecemos, mas essas reservas subterrâneas têm nome e endereço. No Projeto Preserva, já falamos da superexploração para irrigação agrícola feita no aquífero Urucuia, que abastece o Velho Chico. Já falamos também das reservas que estão sob os pés de quem mora em Belo Horizonte. Estamos cercados por aquíferos incrustrados nas rochas de minério de ferro. Por aqui a superexploração dos aquíferos do Quadrilátero é feita, principalmente, pela mineração.

 

A falha na gestão do que não se vê

 

É claro que a perda de água subterrânea raramente tem um único culpado. É uma soma da variação do clima, a pressão humana, irrigação em um lugar, mineração em outro, poços em quase todos os cantos, e aí os aquíferos entram no vermelho. A ausência de dados também pesa. Não se gerencia bem o que não se mede. Um estudo da ONG Fase, com base em relatórios da Agência Nacional de Águas (ANA) de 2022, mostrou que em 71% dos casos de outorga de água subterrânea para mineração, não houve registro de qual aquífero foi usado.

Que fique o alerta: em muitos rios brasileiros, boa parte da água que escoa depois de semanas sem chuva vem justamente das reservas subterrâneas. Até os rios que mal sabemos o nome, silenciosamente, da água profunda que não vemos. É ela a nossa grande riqueza.

O Projeto Preserva segue mapeando essas conexões entre ciência, território e política pública nos biomas brasileiros. Acompanhe o Mapa de Soluções Ambientais em projetopreserva.com.br/mapa.

 


 

Artigo publicado originalmente na coluna do Projeto Preserva, no Jornal Diário do Comércio

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