O clima ferve fora das quatro linhas

Enquanto o futebol ganha destaque, as mudanças climáticas revelam recordes alarmantes e a falta de preparo global
Fotografia de arquivo da Praça de Vosges em Paris, França, mostrando o gramado central com pessoas relaxando em um piquenique, uma fonte de água ativa e edifícios históricos de tijolos vermelhos e pedra ao fundo sob um céu parcialmente nublado.
Place des Voges, em Paris (França): beleza histórica e calor extremo urbano. | Foto: Projeto Preserva (arquivo)

 

No calor da Copa e com o mundo imerso na atmosfera do futebol, as questões do clima, mesmo com um jogo duro, têm perdido espaço nas primeiras páginas.

Recordes são batidos dentro de campo, com os gols de Messi, por exemplo, e fora, com 48 seleções disputando o torneio. A jornalista Daniela Chiaretti, especialista em meio ambiente, escreveu que a Copa de 2026, com suas 104 partidas espalhadas por Estados Unidos, Canadá e México, já entrou em campo com a faixa de Mundial mais quente de todos os tempos. Também pode levantar o caneco de a mais poluente, devido à logística de deslocamentos entre os três países-sede (e mais queima de combustíveis fósseis).

 

Calor abafa Semana do Clima

 

Enquanto o clima esportivo ferve nas Américas, na Europa, não são os placares que marcam os recordes, mas, sim, os termômetros. O continente enfrenta uma onda de calor sem precedentes, impulsionada pelo “bloqueio ômega”, que atua como uma tampa que retém o ar quente, fechando escolas e mudando a programação de pontos turísticos, como a Torre Eiffel e o Museu do Louvre, para proteger as pessoas.

Pela França, o recorde histórico não foi anotado por Kylian Mbappé, mas pelo calor extremo: na semana passada (23/06), o país viveu o dia mais quente de sua história, desde o início dos registros, em 1947. Na Inglaterra, durante a Semana da Ação Climática de Londres, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, resumiu nossa realidade atual como um “Conto de Duas Crises” — a climática e a energética —, impulsionadas pelo vício global em combustíveis fósseis.

A falta de preparo das cidades, muitas vezes, beira a ironia. Ainda na capital inglesa, um simpósio que debateria exatamente a resiliência climática, organizado pela Zurich Climate Resilience Alliance, na London School of Economics, precisou ser cancelado, devido ao alerta de calor extremo.

As cidades europeias, na sua maioria, são preparadas para invernos rigorosos. Muitos de seus edifícios são projetados para reter calor e não possuem sistema de refrigeração. Quando a temperatura sobe (e subiu muito), o impacto vai além do conforto. As ondas de calor e as secas já evaporaram cerca de 3% da renda familiar média na Europa, chegando a derreter quase 10% do orçamento de famílias na região de Madri, na Espanha.

No seu discurso, Guterres também chamou a atenção para o fenômeno El Niño, que não está apenas batendo à porta, mas “corre o risco de demolir a casa abaixo”.

 

A gestão na base do susto

 

Se as nações ricas europeias sofrem com a falta de adaptação, o cenário nos pequenos municípios brasileiros revela uma vulnerabilidade dramática e de cofres vazios. Em Minas Gerais, 66% das cidades afirmam não estar preparadas para enfrentar os extremos climáticos (veja aqui), e 76% sequer possuem recursos próprios suficientes para gerenciar ações ambientais. Em muitos municípios do interior não há dinheiro nem conhecimento técnico para enfrentar a “ditadura do asfalto” e criar infraestruturas de infiltração. Sem recursos, a única tática que resta aos gestores é monitorar os rios e tentar mobilizar a população na base do susto e do alerta.

 


 

Artigo publicado originalmente na coluna do Projeto Preserva, no Jornal Diário do Comércio

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