Fogo amigo

Chama que destrói a vegetação também pode ser aliada na preservação, desde que usada com sabedoria
Fotografia aérea da encosta de uma montanha na Serra do Cipó, em Minas Gerais. A imagem mostra fumaça branca subindo da vegetação seca em direção ao céu azul e grandes áreas de solo e rochas já carbonizadas, de cor preta, no lado esquerdo da encosta.
Foco de incêndio atinge a vegetação na Serra do Cipó, em Minas Gerais | Foto: Projeto Preserva

 

Caminhávamos pela Serra do Espinhaço com a moradora de uma comunidade de apanhadores de sempre-viva, para a gravação da série “Projeto Preserva: Saberes Ancestrais”, quando ela desabafou sobre a dificuldade de encontrar a flor, matéria-prima que sustenta o artesanato de toda a região. Os campos do Cerrado estavam sendo destruídos pelas plantações de eucaliptos e ficaram inacessíveis, com a criação do parque e da área de preservação permanente. As flores também estão desaparecendo por falta de… fogo.

 

A sabedoria que renova os campos

 

Foi aí que começamos a aprender sobre o manejo do incêndio no Cerrado: técnica ancestral que garante que as flores possam renascer no ano seguinte. É o paradoxo do fogo. Descontrolado ou (e) criminoso, ele destruía. Manejado com técnica, sabedoria e responsabilidade, protegia o bioma e garantia a fartura do ano seguinte. Além do cuidado de colher a sempre-viva, preservando a haste e mantendo a planta nos campos, os “antigos” sabiam manejar o fogo para que a vegetação se renovasse.

A prática, hoje, é proibida nas áreas protegidas, como na região de Diamantina, onde vivem a comunidade da apanhadora e muitas outras. Mas um estudo recentemente publicado no Journal of Vegetation Science abordou o assunto e revelou que a simples supressão do fogo controlado pode provocar o “adensamento lenhoso”, levando à perda da biodiversidade característica. A área deixaria de funcionar como um Cerrado, transformando-se numa floresta e isso altera serviços ecossistêmicos essenciais do bioma.

Ou seja, sem o manejo do incêndio controlado do Cerrado, várias espécies, como gramíneas, ervas e plantas de pequeno porte, podem desaparecer, afetando até mesmo a recarga de águas subterrâneas, uma das maiores riquezas do bioma. Os pesquisadores concluíram que é preciso implementar políticas de manejo como o “fogo prescrito” para que as reservas cumpram a função de preservar os campos naturais.

 

O risco da supressão e o crime ambiental

 

É preciso lembrar que essa prática é bem diferente do cenário que vimos há dois anos, com os incêndios criminosos que acinzentaram o céu do país. Nos próximos meses teremos novamente a estiagem e o fenômeno “El Niño”. Caracterizado pelo aquecimento de mais de 0,5°C das águas do Oceano Pacífico, ele tende a elevar as temperaturas no planeta, como em 2024.

É o paradoxo da ação humana: de um lado a omissão em incorporar a tecnologia ancestral do manejo do incêndio, de outro vemos a ação criminosa de quem se aproveita da estiagem para transformar áreas nativas em pastagem.

O desafio que se impõe não é escolher entre proibir ou liberar o fogo, mas entre ignorar ou inovar. Ignorar o conhecimento ancestral de manejo do fogo é perder espécies, água e modos de vida que sustentam comunidades inteiras há gerações. Ignorar é também fechar os olhos para o outro tipo de incêndio, o criminoso, que devasta em nome da ganância e permanece sem punição.

Inovar significa reconhecer que ciência e saber ancestral não são opostos, mas, aliados, para que o Cerrado, a savana mais diversa do planeta, continue sendo o berço das águas, fundamental para a biodiversidade do Brasil.

 


 

Artigo publicado originalmente na coluna do Projeto Preserva, no Jornal Diário do Comércio

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