Helena Taliberti transforma o luto de Brumadinho em livro e exalta a força das mulheres na luta por justiça

Em entrevista ao Projeto Preserva, autora detalha a dor de perder a família em Brumadinho e explica como as mulheres lideram a resistência contra o descaso
Helena Taliberti sorrindo entre os filhos Camila e Luiz, ao lado do marido Wagner, à esquerda, em foto de família que ilustra o artigo sobre o livro das vítimas de Brumadinho
Helena Taliberti entre os filhos Camila e Luiz, ao lado do marido Wagner (à esq.): livro resgata a trajetória dos jovens mortos em Brumadinho e transforma o luto em luta por justiça | Foto: Acervo familiar

 

A reparação integral ainda está longe de ser uma realidade e o processo segue lento, sete anos depois do rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho. Helena Taliberti transformou a dor mais profunda de sua vida em palavra escrita, para enfrentar as inúmeras tentativas de apagamento dessa história. No desastre de janeiro de 2019, ela perdeu quase a família inteira: o filho Luiz (31 anos), a filha Camila (33 anos), a nora Fernanda (30 anos), que estava grávida do primeiro neto de Helena, além do pai biológico dos jovens e da madrasta. Eles eram turistas de São Paulo e estavam hospedados na pousada engolida pela lama, logo abaixo da barragem.

Ao lado do marido, Wagner, e dos amigos dos filhos, a autora fundou em julho de 2019 o Instituto Camila e Luiz Taliberti. Agora, Helena Taliberti lança o livro “Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes”.

Em entrevista ao Projeto Preserva, a escritora detalha as razões que a levaram a escrever a obra, denuncia o descaso com as comunidades que perderam seu meio de subsistência e destaca um elemento central na busca por justiça em Brumadinho: o protagonismo das mulheres que encabeçam o movimento de resistência.

Confira a entrevista na íntegra.

 

As origens do livro de Helena Taliberti e a luta contra o esquecimento

 

Projeto Preserva: Já se passaram sete anos desde 2019 e muito pouca coisa avançou. É um processo muito lento, que deu tempo até de você escrever um livro antes de uma possível conclusão. Como surgiu a ideia e a necessidade de escrever esta obra?

Helena Taliberti : Eu sempre tive uma questão de ouvir das pessoas muitas coisas a respeito dessa tragédia quando eu contava que era uma atingida. Obviamente que não diretamente do ponto de vista material, mas do ponto de vista psicológico, emocional e familiar, completamente atingida. Fui notando que as pessoas que me encontravam sempre falavam de como tinham recebido a notícia, como tinham vivido aqueles primeiros dias e como vivem quando pensam e relembram. Comecei a anotar no celular o que as pessoas me falavam e pensei: “Eu preciso escrever um livro dessa história”.

Porque é uma história tão inusitada: a de uma mãe que perde o filho, a filha, a nora, o neto. Junto também estavam o pai biológico deles e a madrasta. Quer dizer, foi a família toda. Não eram pessoas de Minas Gerais, eram turistas e estavam na única pousada que foi levada pela lama. Eram pessoas que estavam no lugar errado, na hora errada. Foi a minha família inteira; sobramos o Wagner, eu e a minha irmã. A ideia do livro veio de perceber que essa história precisa ser contada em todas as suas camadas: quem eram meus filhos, como eu vivi e vivo sem eles. Para que essa história não seja esquecida, porque existe uma grande vontade de que essa história suma da face da Terra. É para contar o que aconteceu e como as pessoas vivem. Precisa ser dito.

PP: E essa mobilização não começou no livro. Logo após o início das investigações, em julho de 2019, vocês criaram o Instituto Camila e Luiz Taliberti, que promove eventos inclusive em São Paulo, levando essa discussão para fora do local do desastre. Qual a importância disso?

HT: A ideia do instituto, na verdade, foi dos amigos e das amigas do Luiz e da Camila. Eles eram muito jovens. A Camila tinha 33 anos, o Luiz tinha 31 e a Fernanda tinha 30 anos. A indignação nessa fase da vida toma proporções muito mais profundas. Eu percebi que eles precisavam também dar um recado para a sociedade: “Olha, o que aconteceu não pode mais acontecer”.

Criamos o instituto em julho de 2019, então ele também fez sete anos agora. E nós temos essa questão no instituto que é falar fora de Minas Gerais. Porque em Minas Gerais, você sabe, a mineração faz parte do cotidiano. As pessoas têm aquilo como uma parte da vida delas, muitas vivem e trabalham na mineração. Acho importante dizer fora de Minas Gerais o que aconteceu, como aconteceu e o que está acontecendo. Porque a situação que encontramos hoje em dia não é uma situação de reparação, não está a contento diante do tamanho da tragédia.

PP: Nessas várias vindas sua e do Wagner a Minas Gerais e a Brumadinho, desde a primeira vez logo após a tragédia, o que e quem vocês encontraram aqui?

HT: Por várias vezes conversamos e sempre encontramos as pessoas da Avabrum [Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão]. Escutamos muita coisa deles: a forma como a empresa trata essa tragédia, como trata os familiares das vítimas, como essas coisas estão ou não estão sendo equacionadas. É preciso reparação integral para aqueles que perderam seu modo de vida, seu sustento, sua casa, sua lavoura, seus animais. Não é possível que uma tragédia dessas arrebate a sua vida dessa maneira e você não tenha como viver.

Sabemos que essas pessoas passam por muitas dificuldades. Há determinadas comunidades que perderam a água, porque viviam do rio, da pesca, e o rio está contaminado. São pessoas que perderam sua forma de subsistir neste mundo. É esse tipo de coisa que a gente encontra, e é sobre isso que tentamos conscientizar a sociedade para que não aconteça de novo.

Aconteceu Mariana. Mariana foi uma sirene de Brumadinho, e ninguém escutou. Aconteceu Brumadinho, aconteceram outras tragédias também, outros rompimentos de barragem, não somente de minério, mas inclusive de água, por conta da mineração. O que a gente encontra, na verdade, é um descaso com essas pessoas e com essas vidas. Você percebe que a vida não está em primeiro lugar, a vida não tem valor.

 

O protagonismo das mulheres de Brumadinho no relato da autora

 

PP: Você esperava uma reação tão forte das pessoas de Brumadinho, uma mobilização que levou à criação do Memorial e de uma associação atuante até hoje?

HT: Eu me coloco nesse mesmo lugar junto com eles, porque nós somos associados da Avabrum. A gente não tinha outra saída. Ou você fazia, ou você fazia. Veja o nível de violação de direitos humanos que aconteceu! Teve mulheres que perderam seus maridos de uma hora para outra e tiveram que educar seus filhos sozinhas. Filhas, que perderam os pais e dependiam deles. Mães, que perderam filhos, como é o meu caso, mas outras mães que dependiam financeiramente dos filhos. Foi uma coisa muito violenta o que aconteceu. E eu acho que a reação não podia ter sido outra.

 

Painéis iluminados com fotos em preto e branco de Camila e Luiz Taliberti no Memorial Brumadinho, ao lado de outras vítimas da Vale, ilustrando o artigo sobre o livro de Helena Taliberti.
Retratos de Camila e Luiz no Memorial Brumadinho, ao lado de outras vítimas da tragédia da Vale, simbolizam a luta contra o apagamento que inspira o livro lançado por Helena Taliberti | Foto: Projeto Preserva

 

PP: Há um fato que chama muita atenção e é muito importante: como todo esse movimento é encabeçado e liderado por mulheres. As mulheres são a força dessa mobilização. Como você vê esse protagonismo e como ele aparece no livro?

HT: Na grande maioria [são mulheres]. Na diretoria da Avabrum, se eu não me engano, tem um ou dois homens só. As mulheres é que são as lideranças. Mesmo na formação, na criação e na construção do Memorial. Todos nós nos envolvemos. O Wagner também. Ele é presidente do Conselho Curador da Fundação Memorial Brumadinho. Mas a gente percebe que a grande maioria é mulher mesmo. Em tudo: na reivindicação, na questão do Memorial, na reivindicação dos direitos, no enfrentamento da empresa. São mulheres muito fortes.

No livro, eu conto rapidamente como a Avabrum foi criada e como nós participamos dela. O nosso instituto foi criado em julho e a Avabrum em novembro de 2019; foram duas instituições criadas no mesmo ano da tragédia. Eu me lembro que a Avabrum, em muitos momentos, nos pediu ajuda e nós, a eles. Então existe uma relação forte entre o Instituto e a associação. Eu dou muito valor para a Avabrum, porque as pessoas encontraram ali um lugar onde podem se expressar, reivindicar e onde são escutadas. Não exatamente como gostaríamos, obviamente, porque existem milhares de boicotes, tentativas de apagamento e de não respeitar os direitos. Mas, de alguma forma, estão lá resistindo.

A resistência é o principal. Todo dia 25 elas fazem um ato na entrada de Brumadinho. Eu acho isso maravilhoso. Eu estou aqui em São Paulo, mas todo dia 25 eu assisto, eu participo. Se você não se une, você não se fortalece. É muito verdadeiro que a união faz a força.]

 

Sementes de resistência e a homenagem de Helena Taliberti às 272 vítimas

 

PP: O título do seu livro, “Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes”, é um mote que toda essa movimentação carrega desde o início. Por que a escolha dessa frase no tempo presente?

HT: Na verdade, a gente usava no passado: “Tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes”. Quando escrevi o livro, queria por o título desse jeito, mas pensei: “Não, vamos trazer tudo para o presente”. Porque a todo momento existe sempre a vontade de esquecer, a vontade de apagar essa tragédia.

E a semente, para mim, é aquilo que floresce. A semente tem um poder: você pega uma semente minúscula e ela sabe exatamente o que vai ser. Ela sabe que vai ser uma árvore, sabe a cor da flor, sabe a fruta que vai dar, o arbusto que vai ser, qual é o clima de que precisa. Ela tem essa força, essa energia dentro dela. Então diz respeito a essa questão de resistir. Primeiro, não apagar: não existe essa coisa de esquecer. A gente nunca vai esquecer. Como é que você esquece a morte da família inteira? Não tem como. Primeiro não esquecer, segundo resistir. Essa é a frase que nos motiva.

PP: Que história exatamente o leitor vai encontrar nas páginas do livro?

HT: Conta a minha história. Eu fiz um recorte: em rápidas pinceladas, conto a história da minha filha e a história do meu filho até a data da tragédia. Conto como foi minha vida com eles a partir do meu casamento com o Wagner, que foi na verdade o verdadeiro pai deles, e como eu vivi e vivo depois que eles se foram.

Tem um trecho do livro de que gosto muito e que resume o porquê e o que eu conto [Helena lê]:

 

“Para mim, quando penso no que vivi naqueles dias, me surpreendo ao ver que ainda estou aqui. Não sei de onde veio uma força que nem sabia que tinha. Acho que veio da vontade de que Camila e Luiz saibam o quanto eu os amo e o quanto eles são imortais para mim. Conto como vivi até agora. Conto na esperança de que sejam palavras que edifiquem o essencial da vida para que se dê importância ao que de fato tem valor: o amor, a união, a solidariedade, a empatia. Conto para que entendamos que não se tem o menor controle sobre a vida em nenhum aspecto. O que chamamos de nosso é apenas um empréstimo. Conto para que amemos nossos filhos incondicionalmente, não importando se são bons alunos, com quem andam, o que fazem ou o que aprontam. Conto para que filhos possam sonhar e viver seus sonhos. Conto para que os filhos aproveitem a infância e a juventude e façam o que amam. Conto para que percebam que tragédias como essa poderiam ter acontecido com qualquer um. Meus filhos eram turistas e estavam lá passeando. Eles estavam nessa linda fase de autonomia e de sonhos se realizando. Conto para que tragédias como essa não aconteçam mais, para que ninguém passe pelo que passamos, para que a morte deles não tenha sido em vão.”

 

PP: O livro já passou pela Flip, em Paraty, e teve uma primeira noite de lançamento em São Paulo com 200 exemplares esgotados. Agora chegou a Minas. Qual é a mensagem central que você quer deixar com essa obra para o público mineiro?

HT: Eu cito no livro uma obra que o Wagner e eu lemos logo depois que tudo aconteceu, chamada “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, de um rabino [Harold Kushner]. Ele fala que nós, os vivos, somos os responsáveis por imortalizar os nossos queridos que se foram. Então é isso: a minha vontade é de que meus filhos nunca sejam esquecidos nem essa tragédia, porque ninguém mais pode passar pelo que nós estamos passando. Digo nós, Wagner, eu, minha irmã e os parentes de todas as outras vítimas.

Faço muita questão de dizer no livro que não o escrevo só para mim ou só para honrar meus filhos: é para honrar todas as 272 vítimas. Porque elas precisam ter essa voz. Meu livro é um pouco disso também, para dizer: “Olha, Luiz e Camila têm aqui a história deles contada, mas a nossa também está sendo contada”.

Na primeira vez que fui ao Memorial [em Brumadinho], tive uma sensação muito forte. Eles morreram juntos e, lá, parecia que estavam todos juntos e em paz, falando para o mundo: “Olha o que aconteceu com a gente. Vocês vão deixar acontecer de novo?”. A memória é o que traz essa imortalidade. Uma sociedade que não tem memória não é uma sociedade completa. É preciso que as pessoas saibam do que aconteceu, lembrem o que aconteceu.

 


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