A violência contra a Terra é a violência contra a mulher: o alerta e o chamado de Avelin Kambiwá em Minas

“Reconectem-se com a Terra! Ouçam os sonhos da Terra! Ela tem sonhos de abundância, fertilidade e liberdade para nós”
A socióloga indígena Avelin Kambiwá | Foto: Patrick Arley (divulgação)

 

Avelin Buniacá Kambiwá é uma ponte viva entre o rigor da sociologia e a profundidade da ancestralidade. Indígena do povo Kambiwá, ela atua em Minas Gerais como uma “reflorestadora de mentes”, combatendo o apagamento histórico dos povos originários no estado. Nesta conversa com o Projeto Preserva, ela reflete sobre a urgência de ouvirmos os sonhos da Terra para interrompermos o ciclo de violência contra o meio ambiente e contra o corpo das mulheres.

 

(Projeto Preserva) Avelin, para os povos originários, a figura da mulher está ligada à criação e à manutenção da vida. Como a sua visão interpreta essa força feminina diante da emergência climática?

(Avelin Kambiwá) Primeiro, tem a ver com a nossa cosmovisão, a nossa visão de mundo, essa força criadora e criativa vem do feminino. Sem o feminino não tem mundo, não tem cultura, não tem a beleza do cosmo. Antes da colonização, o sagrado da criação ditava o tempo correto de plantar, colher e caçar, respeitando o ciclo das fêmeas. Esse equilíbrio vinha do respeito à força da mulher. No meu povo, os Kambiwá, preservamos isso na matrilinearidade: nossa origem está ligada à nossa mãe. Para nós, “Deus é Mãe” e nossa dependência da Terra vem de uma “Mãe Terra”. Por isso, as mulheres estão sempre na linha de frente da proteção, por ter essa ligação intrínseca com a criação.

(PP) O conceito ocidental de esperança é, muitas vezes, passivo. No contexto das mulheres indígenas, a esperança é uma ferramenta de luta?

(AK) A nossa esperança é ativa, é o “esperar fazendo”. É a mesma ideia da força criativa: enquanto ninguém está vendo, o solo está cheio de microrganismos trabalhando e as raízes estão se espalhando. Nossa esperança tem a ver com esse trabalho silencioso e persistente.

 

Sentinelas das montanhas: onde a violência contra a terra e a mulher se encontram

 

(PP) Minas Gerais é um estado marcado pela mineração e pelo agronegócio. Como as mulheres indígenas têm atuado como sentinelas dessas terras?

(AK) As mulheres indígenas são as guardiãs das montanhas de Minas, junto às quebradeiras de coco, as raizeiras… São mulheres tradicionais ligadas à terra, incluindo a “mulher cabocla”, que mantém na sua prática a dependência da Mãe Terra. Hoje, as mulheres são as guardiãs dos rios atacados, como o rio Doce, o Watu do povo Krenak, e o Paraopeba, que sofreu um processo de silenciamento, de dar um dinheiro, uma compensação em dinheiro, para que essas populações deixassem de lutar pela recuperação do próprio rio. É preciso entender uma coisa: quanto maior a violência contra as montanhas e contra os rios, maior a violência contra a mulher. É proporcional.

(PP) Como o apagamento da identidade indígena em Minas contribui para a degradação ambiental?

(AK) Se o Estado não reconhece que ali existe um povo indígena, ele se livra da obrigação de fazer a Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI), prevista na Convenção 169 da OIT, assinada pelo Brasil. O indígena vira um “entrave”. Então é mais fácil dizer que não existimos. Espiritualmente, esse apagamento tira a função dos guardiões da Terra.

Então você fala: “olha, não existe indígena em Minas Gerais. Indígena é só alguns pequenos grupos aqui e ali, os Maxakali, os Xacriabá”… E tentam o quanto mais possível apagar essa presença desse povo e apagar as nossas culturas também. Tentam reduzir nossa ancestralidade ao lugar do “caipira” para não ter que pedir permissão aos originários. O caipira, no fundo, é um caboclo, é um indígena. Mas tentam tirar essa ancestralidade do povo, para não ter que arcar com as consequências de ser esse povo originário. Então, se você não tem mais os originários da Terra, você não tem para quem pedir permissão. É mais fácil passar o trator por cima de quem foi invisibilizado.

 

Teko Porã: reciprocidade e a escuta dos humores da Terra

 

(PP) O que o conhecimento indígena pode ensinar sobre as crises do clima?

(AK) Nós compartilhamos a filosofia do Teko Porã (Bem Viver), fundamentada na reciprocidade e na complementaridade: o que eu tiro da Terra, eu devolvo. Eu não exploro a terra até a exaustão; eu a deixo descansar. Tratamos a Terra como um ente sagrado, não como uma propriedade para ser vendida ou esburacada. Como diz o Davi Kopenawa, a crise climática é a vingança da Terra, que se cansou de ser maltratada. Ela tem humores, sentimentos e fases, como uma mulher, que precisa ser respeitada.

(PP) Existe um feminismo indígena? Como essa organização feminina foca na cura da Terra?

(AK) Construímos o que chamamos de “Luta das Mulheres Indígenas”. A colonização trouxe o machismo e o patriarcado; a violência contra a mulher indígena cresceu 500% em dez anos, entre 2003 e 2022. São dados da Universidade Federal do Paraná. Estamos em um processo de contracolonização. As mulheres sempre foram o protagonismo silencioso, mas agora estamos rompendo isso. Não tem mais como a mulher recuar para trás do cocar do homem. O caminho agora é o retorno da mulher ao papel de liderança da comunidade e guardiã dos saberes.

Nossas famílias sempre foram comunitárias. Esse modelo, com o homem como o centro da família, não funciona, não está funcionando. Prova disso é essa violência contra a mulher indígena, aumentando assustadoramente. Principalmente com esse modelo cristão, que chegou também com a colonização. Então a gente percebe que depois que a gente saiu de trás do cocar do homem, a gente não volta nunca mais. A tendência é a gente ter que trabalhar agora com mais conscientização para que a mulher indígena também possa acessar os direitos da mulher, Lei Maria da Penha e outras conquistas.

 

Autonomia e arte: o protagonismo feminino para além do lar

 

(PP) Como fortalecer a autonomia econômica dessas mulheres sem ferir a tradição?

(AK) Valorizando a arte indígena. Comprar o artesanato diretamente da produtora é uma forma de zelar pela nossa autonomia. A dependência financeira do homem é um dos maiores fatores de violência. Consumir nossa arte é cooperar para que a mulher indígena saia desse ciclo e tenha independência econômica para seguir protegendo seu território.

Existem vários artesãos indígenas que já tem seu Instagram. Então a gente está aí, principalmente as mulheres que estão à frente disso, dominando as tecnologias. Muitas mulheres indígenas que estão em contexto urbano estão também nas universidades. Vários congressos, vários encontros têm esse artesanato indígena disponível. Valorizar a arte indígena é uma forma, sim, de trabalhar, de cooperar para que as mulheres indígenas tenham mais independência econômica. Essa autonomia financeira é muito importante também para a gente sair desse ciclo de violência. Consumir arte das mulheres indígenas é uma forma também de zelar pela nossa autonomia.

(PP) Que chamado você faz às mulheres mineiras neste momento de urgência planetária?

(AK) Reconectem-se com a Terra! Ouçam os sonhos da Terra! Ela tem sonhos de abundância, fertilidade e liberdade para nós. Voltem a ouvir essa mãe selvagem e ancestral. Tirem os sapatos, andem descalças, estejam próximas às águas. Quando você volta a ouvir os sonhos da Terra, você passa a protegê-la automaticamente, porque não tem como não proteger a própria mãe. Como diz o parente Ailton Krenak, “a vida não é útil”. E a Mãe Terra também, não. Ela é nossa mãe.

 

“Reconectem-se com a Terra! Ouçam os sonhos da Terra!” | Foto: Fabio Mendes (divulgação)

 


 

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