Cientistas alertam: veredas do Cerrado podem desaparecer em 50 anos

Pesquisadores revelam que poços clandestinos, monoculturas e a crise climática aceleram o secamento dos oásis do sertão
A foto mostra uma imagem de vegetação típica das veredas, com afloramento de água ao centro.
A vereda é um oásis em meio ao Cerrado | Foto: Thpelin (Creative Commons)

 

No extremo norte de Minas Gerais, há uma região que não aparece delimitada nos mapas oficiais, mas existe como território de um ecossistema raro: o Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu. Essa área conecta unidades de conservação, como parques estaduais, parques nacionais e áreas de proteção ambiental, além de comunidades e territórios indígenas, que têm em comum a formação das veredas, oásis do sertão mineiro que regulam o fluxo das águas subterrâneas, abrigam espécies ameaçadas e sustentam modos de vida seculares. Inclusive, foi neste lugar que o Cânion do Peruaçu, que fica no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, foi reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco.

Uma vereda é um fio de vida que interrompe a paisagem do Cerrado: é onde o lençol freático toca a superfície e faz nascerem olhos d’água que alimentam rios inteiros. São zonas úmidas de rara biodiversidade, moldadas pela presença imponente do buriti e outras espécies de plantas, que atraem insetos e animais que dependem da água constante. Nas veredas, a terra respira e preserva o equilíbrio hídrico do bioma.

 

Imagem mostra um imponente buriti à esquerda e um curso d'água ao centro
O buriti e a água são características marcantes das veredas, que estão desaparecendo | Foto: Vitor 1234 (Creative Commons)

 

Hoje, a paisagem marcada pela presença dos buritizais e pela biodiversidade, eternizada por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, está sob ameaça de secamento, avanço da fronteira agrícola e mudanças climáticas. Por isso, o mosaico também é o destino de um grupo de pesquisadores divididos em diferentes frentes de investigação para evitar o colapso desses ecossistemas.

“Como as veredas estão secando, a vegetação está mudando e muitas espécies de ambientes úmidos estão deixando de existir. Estão sendo substituídas por espécies do Cerrado”, explicou Yule Nunes, coordenadora do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração.

O programa PELD-Veredas reúne cientistas de diferentes áreas para monitorar os efeitos das mudanças climáticas e da ação humana sobre esse ecossistema. Implantado em 2016, no norte de Minas Gerais, o projeto investiga esses ambientes úmidos do Cerrado que desempenham papel importante na regulação hídrica, no equilíbrio climático e na sobrevivência de comunidades.

Numa região marcada por baixos índices de desenvolvimento humano e alta vulnerabilidade à desertificação, o PELD Veredas se tornou referência em investigar o secamento acelerado desses ecossistemas, analisando desde a dinâmica da água e do solo até a reprodução das plantas, a biodiversidade da fauna e a possibilidade de recuperação do solo.

O solo especial, resultado de uma formação de milhares de anos, mantém a água e fornece a regulação hídrica durante os meses mais secos. Quando o solo muda por interferência humana e pela crise climática, há um efeito em cascata:

“A degradação do Cerrado altera o solo e diminuiu a água do lençol freático. O solo no interior da vereda, normalmente úmido, vai perdendo a capacidade de regulação de água, e a areia que vem do Cerrado se deposita definitivamente. Com isso, as espécies que eram adaptadas ao ambiente mais úmido não conseguem mais permanecer ali. O ecossistema frágil das veredas se altera e perde a resiliência ao fogo”, explicou a doutora em Ecologia, Dora Magalhães Veloso, da Unimontes.

Os pesquisadores estão usando o georreferenciamento para quantificar a perda das veredas nos últimos 15 anos, mas os relatos dos moradores e a visitas feitas em três áreas do Mosaico Peruaçu evidenciam o desaparecimento desses ecossistemas.

“Na região do Parque Estadual Veredas do Peruaçu, na comunidade Buriti, existiam poços de água, mas, agora, boa parte secou. Hoje, é uma vila abandonada porque a água praticamente acabou.  Sabemos que a desertificação da região é algo possível”, diz a coordenadora do Peld Veredas, Yule Nunes.

 

As veredas podem desaparecer em 50 anos, segundo pesquisa

 

Se nada for feito, as veredas já impactadas da região Noroeste de Minas Gerais podem colapsar em 50 anos, prevê o estudo do pesquisador Manoel Leite, da Unimontes. Durante pesquisa de doutorado, que será defendida no fim do ano, ele investigou veredas que estão em processo de secamento, também, em fase intermediária e preservadas.

Segundo a pesquisa, os poços de captação de água, as monoculturas, como a de eucalipto, e a crise climática formam a combinação que extermina as veredas, em Minas Gerais.

“Entre os principais motivos para o secamento da região estão os milhares de poços tubulares de irrigação, abertos por produtores e empreendimentos que drenam a água do lençol freático. Grande parte dos poços é ilegal”.  “Além disso, há a mudança do uso do solo pelas monoculturas, que ajuda a rebaixar ainda mais o lençol freático. Junto a isso, o regime de chuvas está alterado devido à crise climática. As chuvas grandes que vinham de 5 em 5 anos, hoje, chegam de 12 em 12 anos, afirma Leite”.

Perder as veredas é acelerar a desertificação da região, segundo os pesquisadores.

 

Imagem mostra região ressecada do Cerrado, por onde passa uma estrada.
A ação humana está condenando as veredas | Foto: Bmleite1 (Creative Commons)

 

As veredas secas se tornam inflamáveis

 

As veredas, como áreas úmidas do Cerrado, são importantes fontes que armazenam carbono. Esse armazenamento acontece pelo acúmulo de folhas e outras partes das plantas do solo.

A umidade e a permanência de água, muitas vezes, no nível do solo, faz com que o processo de degradação dos restos vegetais seja muito lento, pois os organismos que fazem este processo precisam de oxigênio. A saturação de água deixa, muitas vezes, o ambiente com pouco oxigênio. Assim, existe um acúmulo de material orgânico pela lentidão da decomposição, que envolve a ciclagem de nutrientes.

Assim, as veredas são ecossistemas especiais para o estoque de carbono. De um ambiente extremamente importante para o estoque de carbono, este ecossistema se torna altamente inflamável e consequentemente, com grande potencial de liberação de carbono. A matéria orgânica, que durante milhares de anos, vem sendo depositada nos solos turfosos das veredas, fica totalmente exposta com o secamento do ambiente.

O solo composto deste material vegetal acumulado, seco, fica vulnerável a ocorrência do fogo, que acontece recorrentemente no Cerrado. A manutenção da água e da sua dinâmica na vereda protege o ecossistema dos incêndios. Com o secamento, o colapso é iminente. De oásis do sertão, fonte de água para uma região castigada pela estiagem, as veredas estão sendo degradadas. (Informações do Boletim do Grupo de Pesquisa PELD – Veredas)

 

Veredas em áreas de preservação e parques também são atingidas

 

O Parque Estadual Veredas do Peruaçu fica dentro da área chamada de Mosaico Veredas do Peruaçu que abrange diversas unidades de conservação. Pela face leste do parque estadual é possível chegar ao Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e região entre as duas unidades é uma APA, área de proteção ambiental.

A oeste do parque estadual, existe outra APA, a maior de Minas Gerais, a APA Pandeiros.

Seu João Roberto de Oliveira já morava na região e viu a criação do parque estadual, há 30 anos. Ele se tornou o primeiro gerente da unidade, em 1994, e só deixou o parque em junho de 2025.

Nas três décadas como responsável pelo parque, conheceu toda a região e cada uma das veredas pelo nome, porte e localização. Chegou a ver pelo menos 15 delas com água, buritis e animais. As veredas pequenas chegavam a 600 metros e as grandes podiam ter vários quilômetros, formando rios. Hoje, apenas duas veredas sobraram. Todas as outras estão secas.

“As únicas veredas que têm água são a Furquilha e a Almesca. A vereda Peruaçu, por exemplo, tem 40 km de extensão dentro do parque: é uma vereda grande que forma o rio. Esse trecho de 40 km secou totalmente há oito anos”.

As monoculturas, incêndios e poços irregulares no entorno das áreas de preservação afetam as veredas dentro dos parques. Quando o solo do Cerrado muda a quilômetros de distância, ou quando o lençol freático é atingido em algum ponto da região, as veredas são impactadas.

Seu João contou que, em 2023, um incêndio que começou a 5 km de distância queimou 25 km dentro da vereda Peruaçu, dentro do parque, devastando o canal do rio. Segundo ele, um posseiro colocou fogo para plantar e devastou a vereda. O plantio não era para consumo humano, nem venda: era para atrair animais para a caça. As veredas também são refúgio de animais e, nos incêndios, quase todos morrem.

 

Lençol freático rebaixa meio metro por ano na região

 

O pesquisador Walter Viana monitora a água superficial e o lençol freático das veredas da região e, na pesquisa de doutorado, investigou o motivo que levou a vereda Peruaçu a secar. O monitoramento começou em 2012 e foi até 2018. Nesses seis anos, o lençol freático da vereda rebaixou 3 metros. A vereda que apresentava uma lâmina de água, secou totalmente. “A água da vereda é a própria água do lençol freático que brota no solo. Quando o nível do lençol freático rebaixa, não aflora, a vereda seca”, explicou Viana.

A avaliação do índice de chuva mostrou que, nos últimos 100 anos, a redução foi de 13%. O desmatamento também interferiu, mas também não foi o principal fator.

A pesquisa concluiu que os poços tubulares para captação de água do lençol freático, abertos por moradores e grandes fazendeiros, foram determinantes para o fim da água. Segundo Walter, 95% dos poços da região são ilegais e não constam nos controles feitos pelo IGAM, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas, responsável pelas outorgas para uso dos recursos hídricos.

Os poços são abertos tanto por moradores quanto por grandes fazendeiros. As grandes lavouras de milho, soja e capim furam poços bem mais profundos, de 300 metros, com vazão de 300 mil litros de água por hora.

“É simplesmente assustador o número de poços. Só na região de Januária, há cerca de 10 mil poços clandestinos. O poder público não sabe o quanto de água é captado porque são todos ilegais. Eu estou vendo as veredas desaparecerem uma a uma” (Walter Viana, Instituto de Geociências da UFMG).

 

A urgência de recuperar veredas que secaram

 

A pesquisadora Maria das Dores Magalhães Veloso, do PELD Veredas, dedica-se à missão de recuperar veredas degradadas no norte de Minas Gerais. Seu trabalho se voltou para o estudo da dinâmica ecológica das veredas e para ações de restauração da vegetação em Áreas de Preservação Permanente do rio Pandeiros. O objetivo é devolver vitalidade a esses ambientes úmidos do Cerrado pela importância deles na regulação do ciclo da água e da sobrevivência das espécies fundamentais para a biodiversidade na região.

Apesar do esforço, as tentativas de regeneração têm encontrado barreiras que expõem a gravidade da crise ambiental. Muitas veredas estão comprometidas por décadas de desmatamento, uso intensivo do solo, abertura de poços e recorrência de incêndios.

“Ainda não consegui ver uma vereda seca voltar a ter água. É frustrante, mas nossas tentativas ainda não tiverem resultado. O que sabemos até agora é que a recuperação de uma vereda seca é um processo lento e incerto. A experiência reforça a urgência de políticas de conservação que evitem a perda antes que a restauração se torne inviável”, explica a pesquisadora.

 


 

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