Você pode até não gostar de pequi (eu adoro), mas não é uma delícia saber que esse fruto do Cerrado está fortalecendo a economia de centenas de famílias no Norte de Minas? Nas redondezas de Montes Claros há uma cadeia produtiva que transforma o extrativismo tradicional em estratégia de desenvolvimento sustentável. Tudo começa na panha: sim, não é colheita! É preciso esperar o fruto cair naturalmente. Ele, então, passa por muitas mãos no processo de beneficiamento para virar óleo, polpa e conservas, revelando uma cor amarelo-ouro-vibrante, pronta para viajar para vários estados do Brasil. É sustento para as famílias, sem derrubar a vegetação nativa.
Em vários territórios do Norte de Minas, cooperativas como a Grande Sertão articulam cerca de 170 famílias de agricultores. Além do pequi, trabalham com a cagaita, o umbu, o araticum. Mulheres e homens se especializaram em misturar o conhecimento tradicional e a inovação para produzir, beneficiar, conservar e escalar os produtos criados com o que a terra oferece. É uma economia que traz novos nomes para nosso vocabulário: sociobiodiversidade, bioeconomia, extrativismo sustentável. Ponto para as empresas e fundos que já entenderam que escala não é a única métrica: a transformação social e ecológica dos territórios também importa e é urgente.
Rizomas de prosperidade sob o solo
É animador rastrear essas iniciativas e anexá-las ao Mapa de Soluções Ambientais que estamos construindo no Projeto Preserva. Mas é preocupante saber que centenas de projetos podem não ter visibilidade: eles poderiam inspirar outras comunidades e aumentar o ciclo de prosperidade e preservação de que tanto precisamos. No último mês, desenvolvemos uma inteligência artificial, o Rizoma, que funciona como um rizoma botânico: uma rede de raízes interconectadas que se espalha em múltiplas direções. Com nossa ferramenta, encontramos projetos como o Programa de Bioeconomia do Pinhão, no Sul de Minas, os Geraizeiros do Vale do São Francisco, o Café Sustentável de Monte Belo, a Cadeia Produtiva da Macaúba, entre tantos outros.
Juçara: o novo ouro da Mata Atlântica
Também descobrimos projetos pelo caminho. Em uma das nossas viagens, na Zona da Mata mineira, perto da Serra do Brigadeiro, conhecemos o biólogo Leandro Moreira, que decidiu plantar sua agrofloresta. Desde então, acompanhamos à distância a beleza silenciosa das colheitas do “Lar dos Muriquis”. Ali, o maior trabalho gira em torno do fruto da palmeira juçara. Antes, explorada de forma predatória para a extração do palmito. Hoje, a lógica se inverte: a árvore permanece em pé, preservada, enquanto seus frutos são colhidos e transformados em polpa, conhecida como “açaí da Mata Atlântica”.
A ampliação da produção agroecológica, a inserção em novos mercados e até a exportação também exigem governança, infraestrutura e cuidado com os limites ecológicos. Entre avanços e tensões, o que vemos em Minas é mais do que uma cadeia produtiva: é a construção de um modelo em que o Cerrado, a Mata Atlântica e a Caatinga em pé sustentam economias locais e reposicionam os territórios como protagonistas no debate sobre o futuro sustentável do País.
Artigo publicado originalmente na coluna do Projeto Preserva, no Jornal Diário do Comércio



