Um projeto desenvolvido em parceria entre a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e associações de catadores da cidade será apresentado na Brazil Conference 2026, nos auditórios da Harvard University e do MIT, nos Estados Unidos. A iniciativa integra o programa Engenharia para a Sustentabilidade e Empreendedorismo Social (ESES), coordenado pelo professor Máximo Martins, do Departamento de Engenharia de Produção da UFOP, e se tornou referência por articular gestão de resíduos, inclusão social e ação climática.
Nesta entrevista ao Projeto Preserva, o professor explica como o trabalho funciona na prática, quais são os principais gargalos da política de resíduos sólidos no Brasil e por que não é possível falar em transição climática sem reconhecer o protagonismo dos catadores.
(Projeto Preserva) Como funciona, na prática, o trabalho desenvolvido pelo ESES em Ouro Preto? O que alunos e pesquisadores fazem no dia a dia junto aos catadores?
(Máximo Martins) O projeto existe há cerca de dez anos e atua como um elo entre universidade e sociedade. Trabalhamos diretamente na gestão dos galpões de reciclagem e na mobilização política para melhorar as condições de trabalho dos catadores.

Esses galpões não foram pensados originalmente para a reciclagem. São estruturas improvisadas, adaptadas de outros usos industriais. Nossa atuação envolve tanto a parte técnica, como economia, gestão, logística e organização dos espaços e maquinários, quanto o diálogo institucional com o poder público municipal para qualificar as políticas voltadas à categoria.
Atualmente, são quatro associações de catadores, cada uma instalada em um galpão, todas com termo de cooperação com a prefeitura. O município paga o aluguel dos espaços e o transporte nas rotas da coleta seletiva. Ao longo desses anos, também desenvolvemos projetos de inclusão social, atendimentos de saúde e melhorias estruturais importantes dentro dos galpões.
Catadores precisam de amparo
(PP) Sabemos que os catadores são responsáveis pela maior parte da reciclagem no Brasil. O que essa realidade revela sobre as falhas estruturais da política de resíduos sólidos no país?
(MM) Ela revela uma contradição profunda. Os catadores fazem a maior parte do trabalho de reciclagem no Brasil e, ainda assim, são os únicos que não recebem salário formal.
Em Ouro Preto, por meio do projeto, conseguimos viabilizar um auxílio catador de cerca de R$ 500,00 e seguimos em diálogo com os gestores públicos para que esse valor aumente. Hoje, a média nacional de renda com a venda de materiais recicláveis gira em torno de R$ 600,00 mensais, de maneira totalmente informal.
A maior parte dos catadores é composta por mulheres negras, o que evidencia um quadro claro de racismo ambiental. Baixos salários, falta de estrutura e ausência de reconhecimento institucional caminham juntos.
Pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, a responsabilidade pelo lixo é compartilhada entre poder público, empresas e cidadãos. No entanto, as empresas não remuneram os catadores pelo recolhimento e triagem dos materiais, quando deveriam fazê-lo. Em Ouro Preto, por exemplo, o município não possui aterro sanitário e os resíduos são levados para outra cidade. Quem faz o transporte recebe salário. Quem realiza a reciclagem, não.
Pensar a gestão de resíduos sólidos passa necessariamente pelo trabalho do catador. O resíduo não é doação nem favor. Ele não desaparece de forma mágica. Trata-se de uma responsabilidade coletiva, e os catadores precisam ser valorizados como protagonistas desse processo.
Gestão de resíduos é agenda climática central
(PP) O Brasil produz cerca de 82 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano e recicla apenas 8,7% desse total. Esses dados mostram o quanto o país está distante de tratar a reciclagem como política pública estratégica. Do ponto de vista climático, qual é o papel da reciclagem e da gestão adequada de resíduos na redução das emissões de gases de efeito estufa? É possível cumprir metas climáticas sem enfrentar esse tema?
(MM) Não é possível. A gestão de resíduos é uma agenda climática central. Quando o lixo não é reciclado, ele acaba em aterros ou lixões, onde sua decomposição libera metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes.
Sem enfrentar esse tema de forma estruturada, com coleta seletiva eficiente, valorização do trabalho dos catadores e integração entre política de resíduos e metas climáticas, não há como avançar na agenda de enfrentamento às mudanças climáticas.
A experiência de Ouro Preto demonstra que a solução passa por um caminho coletivo. Universidades, governos, empresas e sociedade precisam assumir a responsabilidade pelos resíduos que geram e reconhecer a reciclagem como um valor ambiental, social e climático.
Fontes
Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, dados mais recentes sobre geração e reciclagem de resíduos sólidos urbanos no país.
Projeto Andus (Apoio à Agenda Nacional de Desenvolvimento Urbano Sustentável no Brasil) em parceria com a Escola Nacional de Administração Pública (Enap). Estudo sobre a contribuição da reciclagem e da compostagem para a redução de emissões de gases de efeito estufa.
Brazil Conference 2026. Informações institucionais sobre a apresentação do projeto da UFOP nos auditórios da Harvard University e do MIT.
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